Última atualização: 22/04/2010
Sabe aquela história de que é preciso preservar a Amazônia porque a floresta pode ocultar a cura do câncer? Esqueça. Quem tem inclinação para acreditar em panaceias deve agora voltar suas esperanças irreais para as farmácias. É possível -não necessariamente provável- que a terapia definitiva esteja ali.
Imagine, combater tumores com remédios de prateleira, hoje empregados para diabetes, artrite e aterosclerose. Pois foi essa a avenida aberta, mas ainda não percorrida, por um estudo da Escola Médica de Harvard publicado terça-feira no periódico "Cancer Cell", pela equipe de Kevin Struhl. Nada garante que a nova rota de pesquisa conduza ao sucesso, porém.
Não é assim que a biomedicina funciona. Muito menos com o câncer, inimigo contra o qual o governo dos EUA declarou guerra nos anos 1970 e até hoje não derrotou.
A novidade trazida por Struhl e companhia está numa ligação surpreendente entre genes ativos em tumores e genes ativos em outras doenças comuns. Coisas como obesidade (síndrome metabólica) e entupimento de vasos sanguíneos por placas de gordura (aterosclerose). São graves problemas de saúde pública, até mais que os tumores.
O time estudou dois grupos de células tumorais, um deles retirado de mamas e o outro, da pele. Encontraram-se milhares de genes em uso, entre dezenas de milhares disponíveis no genoma. Comparando os dois conjuntos, contudo, tornou-se possível discriminar três centenas -343, exatamente- de candidatos a um envolvimento direto com o câncer.
A surpresa veio com a pesquisa das funções já conhecidas desses candidatos. Apareceram várias famílias de genes implicados em processos inflamatórios e no metabolismo de lipídios (ou seja, gordura).
A associação entre tumores e inflamações já é bem estudada. A elas se atribui, por exemplo, o mecanismo de formação de tumores no estômago após infecção por bactérias Helicobacter pylori. A participação de genes relacionados com lipídios, contudo, era muito menos esperada.
"A cada ano, há provavelmente dez grandes artigos numa área que ajudam a avançar conceitos", disse à revista "The Scientist"Reuben Shaw, pesquisador do Instituto Salk sem relação com o estudo de Harvard. "Acho que este é um deles."
Se processos inflamatórios e metabolismo de gorduras são importantes para células tumorais, remédios que os combatem também devem criar dificuldades para elas. A conclusão lógica foi posta à prova por Struhl. Ele lançou mão de medicamentos comuns, como metformina (para diabetes), celecoxibe (anti-inflamatório usado contra artrite) e sinvastatina (aterosclerose). Dos 13 compostos testados, 11 inibiram o desenvolvimento de tumores nas linhagens de células cultivadas em laboratório.
É importante ressalvar que são resultados experimentais, preliminares e apenas in vitro. Não há garantia, apenas sugestão, de que essas drogas possam de fato ajudar a curar tumores em pessoas. Muitos estudos precisarão ser feitos, mas ao menos se abriu um novo front na guerra inglória.
Mesmo que as terapias antitumorais não venham a avançar por essa via, contudo, ela terá contribuído para refinar o modo de entender o (mau) funcionamento do organismo. Se processos tão gerais estão implicados em doenças tão díspares, suas panes não seriam o mecanismo específico por trás das moléstias, mas sim, talvez, o tipo de célula que afetam.
Assim nascem as novas ideias. Algumas sobrevivem.
Fonte: Folha de São Paulo
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